sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A responsabilidade Social e Profissional do Cerimonialista


Para começar este blog, transcrevo um texto de João Baptista de Oliveira do qual gosto muito e que sempre releio como inspiração. Acho que chegar a este estágio é o sonho de todo cerimonialista. 

"Na conclusão da parte expositiva do livro “Como Promover Eventos - Cerimonial e Protocolo na Prática”, publicado pela Editora Madras Business, de São Paulo, lê-se uma interessante indagação sobre o que se espera do cerimonialista. Vem, a seguir, esta resposta: Tudo!
Mas tudo de bom.  
Ele é uma espécie de “salvador da pátria.  Se seu desempenho for bom, o evento está salvo. Sua capacidade de comunicação, seu charme pessoal e sua classe cobrirão falhas e lacunas, deslizarão sobre deslizes e darão brilho e colorido à solenidade.   Para o público, o Mestre de Cerimônias é o cicerone lúcido, o guia sereno e onisciente que conduzirá a todos na excursão virtual para a qual foram convidados, ou adquiriram ingressos.
Todos esperam dele a condução firme, a exposição clara e a apresentação correta do que de melhor o programa tem a lhes oferecer. Há, sempre, uma extraordinária expectativa em relação ao Cerimonial, que todos esperam e desejam seja perfeito! 
Em atenção a isto, ele:
• Não pode ser prolixo. Nem lacônico.
• Não pode ser inflexível. Nem pusilânime
• Não pode ser inibido. Nem exibido.
• Não deve ser sisudão. Nem galhofeiro.
• Não pode ser esnobe. Nem vulgar.
Afinal, como é visto o Mestre de Cerimônias/Protocolo?  No início, quando ninguém sabe como montar o programa corretamente, ele é:

UM SANTO
de quem se espera o milagre do evento perfeito.
Durante a preparação e toda a execução da solenidade, ele é
UM ANJO
velando para que absolutamente nada falhe.
Concluído o trabalho sem alterações ou problemas, ele é apenas
UM HOMEM
que meramente cumpriu sua tarefa.
Porém... se alguma coisa não saiu a contento  não importa por culpa de quem  ele é
UM DIABO
e precisa ser exorcizado o mais depressa possível!
Para que se constate o grau de responsabilidade social e profissional de quem se disponha a exercer a honrosa e sensível função de cerimonialista, basta que se retomem aquelas ponderações, desenvolvendo-as mais detalhada e didaticamente.
Desnecessário dizer que quanto mais elevado for o nível de um evento, tanto mais se dependerá da atuação firme, lúcida e serena de um cerimonialista competente e capaz. Não é exagero nem figura de retórica, portanto, dizer que ele é o “salvador da pátria”, o orientador de todas as partes e de todos os atos da solenidade. O público na platéia, os participantes no palco ou na coxia e mesmo os componentes da mesa  nesse rol incluído o próprio presidente  acompanham atentos seus gestos e seu comando, tanto quanto os integrantes da orquestra seguem a regência do maestro.
A afirmação de que todos esperam dele “a condução firme, a exposição clara e a apresentação correta” sintetiza a tríade da ação básica do cerimonialista.
Apresentação correta refere-se, em primeiro lugar, à preocupação que sua atividade lhe impõe quanto à sua aparência pessoal. Se o maestro clássico se apresenta com impecável smoking, o mínimo que a função do cerimonialista exige é zelo quanto a seu traje  elegante e discreto  seus sapatos  clássicos, em bom estado de conservação e devidamente polidos  e a atenção pessoal quanto à aparência física, asseada e bem cuidada ou, até mais: produzida!  Em segundo lugar, a referência se aplica à apresentação dos pontos seqüenciais da programação, que tem de ser atenta, precisa, marcada pelas pausas e ênfases devidas. Isso implica, no plano prévio, conhecimento e estudo do roteiro  com eventuais anotações feitas com a caneta hidrográfica vermelha e, se for o caso, com marca-texto  e, durante todo o transcorrer da cerimônia, na observação visual do que está acontecendo além do script, desde sinais fisionômicos  do presidente a imprevistos e incidentes de percurso com algum participante do programa. Ou seja: o apresentador da cerimônia tem de ter “um olho no peixe e outro no gato”, não podendo ficar de nariz enterrado no texto...
Exposição clara tem a ver com a forma de articular as palavras, de utilizar o microfone e de impostar a voz. Cabe recorrer, uma vez mais, à obra já citada:  
Quando se ouve, na abertura da solenidade, uma voz bem colocada, clara e firme, na intensidade certa, timbre exato e dicção perfeita  em que cada palavra é articulada corretamente  outro importante ponto estará sendo marcado.
‘Dêem-me a palavra certa, no tom exato de voz e eu moverei o mundo’ diz Joseph Conrad.
O poder catalisador de uma voz possante e bem modulada, enérgica e polida, é inquestionável e, ao mesmo tempo que cativa, impõe silêncio consentido e atento.
Condução firme, por seu turno, volta-se para o aspecto da autonomia e da autoridade funcional do cerimonialista. A incumbência que lhe foi atribuída de conduzir o evento há de ser acompanhada da conseqüente e correlata liberdade operacional, pois é princípio rudimentar de bom senso e boa administração que a toda responsabilidade corresponde a competente autoridade.
No campo prático, isso significa que ele deve evitar  no limite das possibilidades  os palpites, interferências e “pitacos” no desenrolar do programa. O ideal é, naquela famosa “fase prévia”, estabelecer com os organizadores quais as pessoas de quem o Mestre de Cerimônias pode receber alguma orientação, sugestão ou solicitação extra-script.  Sem essa atitude de firmeza, fica o cerimonialista  e por via de conseqüência, a cerimônia  passível de incluir coisas incorretas, inadequadas e até inconvenientes na programação, gerando conseqüências danosas. É bem verdade que muitas vezes as pessoas que interferem são bem intencionadas, mas, como ensina a velha sabedoria popular “De bem intencionados o inferno está cheio”! Quanto mais domínio o cerimonialista tiver acerca do evento: sua natureza e razão de ser, seus promotores e participantes, sua seqüência de falas e de atos, as autoridades previstas e presentes etc., menos exposto a essas “incursões de palpiteiros” ele estará. Por acréscimo, quanto mais firme e segura for a postura do condutor da solenidade, mais possibilidades ela tem de ser bem sucedida.
É importante lembrar que não é à toa que o cerimonialista é chamado “Mestre de Cerimônias”!
O dia-a-dia enseja ver eventos mal planejados chegar a um “final feliz” tão somente em decorrência, na ponta final, da presença de um cerimonialista competente, responsável e hábil  que sempre, no momento azado, tem uma “saída de mestre”. Por outro lado, é bastante comum casos de solenidades cuidadosamente programadas “dar com os burros n’água” pela incompetência do condutor final da cerimônia.
Essa é uma questão, até, dos domínios da matemática: qualquer número  por maior que seja multiplicado por zero, é igual a zero!
Ao deferir a alguém a tarefa de cuidar de um evento solene, qualquer instituição de caráter público ou privado, ou empresa do mundo corporativo, espera que tudo  absolutamente tudo  seja feito com qualidade, zelo e exatidão. Para quem a aceita, essa não é, não deve, nem pode ser uma missão impossível. Ele é cerimonialista, vale dizer, um especialista em cerimonial! O mínimo que deve conhecer é tudo que diga respeito à matéria. É inconcebível que não possua obras dos verdadeiros mestres, como Nelson Speers, Augusto Estellita Lins, Marcílio Reinaux, Olenka Ramalho Luz, Maria Iris Teixeira de Freitas e outros, numa profusão tão notável, que seria impossível enunciar no espaço desta obra.
Além de ter lido e relido, com as competentes anotações, o Decreto Federal nº. 70.274/72: “Normas do Cerimonial Público e Ordem Geral de Precedência” e a Lei nº. 5.700/71: “Símbolos Nacionais”, há de ter esses dois diplomas legais constantemente ao alcance das mãos. E dos olhos!
Melhor que isso, deverá ter feito um Curso de Cerimonial e Protocolo e, coroando todos esses cuidados, ter se filiado ao CNCP  Comitê Nacional do Cerimonial Público, passando a participar, de fato e de direito, do extraordinário e rico universo cerimonialista.
Afinal, é de sua exclusiva responsabilidade a consecução de uma cerimônia isenta de gafes, deslizes e falhas protocolares. E isso não é para amadores!
Instituições associativas, entidades de classe, organizações e empresas da área privada, porém, por não possuírem esse serviço (Chefe do Cerimonial), têm partido para a improvisação  por meio de algum associado ou funcionário ‘com jeito para a coisa’, bem como para a contratação dos poucos profissionais da área, ou de apresentadores de rádio e TV. Alguns destes últimos são excelentes comunicadores... mas nem sempre entendem de cerimonial e protocolo, embora normalmente se desincumbam bem da tarefa. (Obra citada).
Pensa, quem não conheça de fato o mundo do cerimonial, que para conduzir uma solenidade basta seguir o roteiro previamente traçado. Ali já consta a relação nominal dos componentes da mesa; a seqüência dos atos do programa; a ordem de chamada dos oradores, terminando com o pronunciamento da mais alta autoridade e pronto!
Será que tudo é tão simples assim? Será apenas essa a responsabilidade social e profissional do cerimonialista? Sabemos que não.
“Cerimonial é fenômeno profundo, no qual se estriba todo o comportamento social dos participantes de um evento”, sentencia, do alto de sua experiência, o cerimonialista Embaixador Augusto Estellita Lins, indicando haver muito mais coisas nessa seara do que sonha a nossa vã filosofia.
O cerimonialista de verdade, cônscio e responsável, terá chegado muito, muito antes do horário marcado para início do evento. Terá verificado com os organizadores quais e quantas autoridades confirmaram a presença e com isso terá condições de formar uma prévia da mesa e das falas. Já poderá, também, começar a pré-estabelecer a ordem de precedência. Checará o equipamento de som e testará os microfones da mesa, da tribuna e  se for o caso  do auditório. Verificará se consta da abertura a execução do Hino Nacional e em que condições: instrumental ou vocal; por meio eletrônico ou por banda, conjunto ou coral. Conferirá o número de lugares à mesa, cotejando-o com a quantidade de pessoas previstas para ali tomar assento, ficando atento para a eventual necessidade de retirar ou acrescentar cadeiras. Verificará se as bandeiras estão dispostas corretamente na panóplia e se esta se encontra instalada no lugar correto, de acordo com o artigo 19 da Lei 5.700. Contatará os auxiliares de protocolo e recepcionistas para saber como está estabelecido o recebimento e encaminhamento a seus lugares de autoridades e personalidades, assim como o procedimento para entrega de peças de homenagem ou flores, quando isso estiver incluído no programa.
Essas singelas e comezinhas providências evitarão que o Mestre de Cerimônias se veja na incômoda situação de “estranho no ninho”, tornando-se refém de uma programação de que não tem o suficiente conhecimento e  o que é mais dramático,  que poderá ter sido elaborada por leigos, podendo estar, em conseqüência, eivada de erros e de falhas protocolares. Um princípio a ser sempre lembrado é: Prever e surpreender sempre. Não ser surpreendido jamais!
A responsabilidade social e profissional do cerimonialista no que respeita ao comportamento pessoal pode ser analisada à luz dos cinco blocos do que denomino dialética comportamental do cerimonialista. Em síntese, ele:
 
Não pode ser prolixo...   
Falar demais, em qualquer circunstância, prejudica. Em nenhuma outra, porém, a prolixidade é mais nociva que em Cerimonial e Protocolo. É fundamental que o cerimonialista tenha em mente que lhe compete falar apenas o necessário para bem apresentar a solenidade. Outros serão os oradores, conferencistas e palestrantes. Quando o cerimonialista fala mais do que o necessário, compromete a função e o evento.

Nem lacônico.
A palavra laconismo origina-se de Lacônia, região da Grécia antiga em que as pessoas falavam tão pouco, que atrofiavam a comunicação, dificultando ou mesmo inviabilizando sua assimilação. A pobreza de informações por parte do cerimonialista, deixa lacunas e dúvidas junto ao público e aos próprios participantes, frustrando o objetivo da sessão. Sem informação, não há interesse e “quem não se comunica se trumbica”.
 
Não pode ser inflexível...
Quem assim procede é logo tachado de “turrão”, “intransigente”, “dono da verdade” e por aí afora, porque não aceita opiniões, não acata sugestões e não atende solicitações para alterar o roteiro aqui ou acolá ou para incluir isto ou aquilo. A inflexibilidade impede que boas idéias enriqueçam o programa. Importa lembrar o velho ditado: “Duas cabeças pensam melhor que uma”.
 
Nem pusilânime
A “falta de pulso” é uma imensa porta aberta à sanha dos palpiteiros! Deve ficar nitidamente claro que Cerimonial e Protocolo é matéria regida por legislação própria e que quem tem competência técnica para determinar o que pode e o que não pode ser feito é o especialista no assunto, o cerimonialista. Assim sendo, qualquer sugestão acerca da solenidade terá de passar por seu crivo, sob pena de ferir preceitos e exigências legais e acabar em gafe.
 
Não pode ser inibido...
Desinibição, firmeza, desembaraço, facilidade de expressão, boa colocação de voz e agilidade mental são alguns pré-requisitos indispensáveis para a atividade de cerimonialista. Uma pessoa inibida, com vergonha de se expor e sem firmeza de pensamento, voz, palavras e postura certamente não responderá à altura da expectativa. Afinal, é ele, o cerimonialista, que abrirá a solenidade, dirigirá o programa, posicionará as autoridades e personalidades e atribuirá a palavra aos oradores! Seu trabalho, portanto, exige segurança, assertividade e desinibição. “Noblesse oblige”, advertem os franceses, com sua indiscutível autoridade.
 
Nem exibido
O exibicionismo, que o dicionário define como “Mania de ostentação, preocupação de se mostrar”, conflita frontalmente com a correta atuação do cerimonialista, cujo traço característico há de ser a discrição. Quanto menos sua figura aparecer em destaque, melhor será sua performance. Ele é o precursor dos acontecimentos e dos pronunciamentos e deve espelhar-se no precursor do Messias, que dizia, com humildade: “Importa que ele cresça e que eu diminua”.
 
Não pode ser sisudão...
Cerimonial tem muito a ver com a arte de bem receber. Se a equipe de recepção dá as boas vindas aos participantes um a um, o cerimonialista o faz genericamente. Sua fala de abertura se inicia sempre com “bem-vindos” e o agradecimento pelo prestígio da presença. E isso não se faz de “cara fechada”, mas com um discreto e acolhedor sorriso, complementado, a seu tempo, pelas expressões “por gentileza”, “por favor”, “por obséquio”, “por fineza”; “muito obrigado”, “tenha a bondade de...”,  sempre pronunciadas de forma simpática e polida.
 
Nem galhofeiro 
A “síndrome de engraçadinho” acomete muitas pessoas, que estão sempre pilheriando, para desespero de outras, mais comedidas e sérias, que não apreciam tal conduta. A culpa, às vezes, nem cabe ao indivíduo, mas às bondosas senhoras que foram visitá-lo, recém-nascido, e disseram: “Como ele é engraçadinho!”... Ele acreditou e julga que isso está valendo até hoje!  Pouco recomendável no meio social, essa atitude é totalmente inaceitável no âmbito solene do cerimonial. Entre um comportamento simpático e acolhedor e inconvenientes gracejos e gracinhas vai um largo espaço, medido pela régua e regra do bom senso!
 
Não pode ser esnobe...
Pedantismo, arrogância, prepotência são alguns sinônimos de esnobismo, mal que, felizmente, é raro entre a ilustre classe dos cerimonialistas. Embora muitos provenham de famílias tradicionais, emblemáticas e até nobiliárquicas, nem por isso deixam de ser afáveis, gentis, numa demonstração de que não foram picados por nenhuma “mosca azul”. As solenidades que conduzem, estas sim, marcam-se por superior e elegante beleza em todos os detalhes, encantando a quem quer assista a elas. Há aqui, portanto, um divisor de águas: Cerimônias nobres, conduzidas por competentes, mas humildes Cerimonialistas.
 
Nem vulgar
Termos há, na Língua Portuguesa, que parecem ser equivalentes, mas que guardam grande distância entre si. Por isso há quem confunda forma popular com forma vulgar. Esta última, refere-se às coisas medíocres, chãs, reles, podendo descambar para as inconveniências, para a chulice e não é nunca e em nada compatível com a distinção natural do cerimonialismo. Popular, porém, tem conotação sadia e agradável: é aquilo que pode ser assimilado, sem dificuldade, pelas pessoas em geral. Em uma solenidade, haverá sempre personalidades cultas, que nem por isso se ofenderão com expressões populares  desde que corretas. Uma considerável parcela, contudo, pode ser de pessoas sem esse preparo intelectual, mas igualmente alvo da apresentação solene. Esse peneiramento, essa separação do trigo e do joio, deve merecer a atenção do cerimonialista, profissional apto a comunicar-se clara e eficazmente com os vários segmentos culturais da sociedade.

Desde os primórdios da civilização, o cerimonial demonstrou-se necessário para a boa convivência do ser humano com seus semelhantes. Muitos grãos de areia escoaram na ampulheta do universo, mas poucas alterações se registraram nesse segmento, cuja importância só tem crescido, na mesma medida em que os humanos ampliam o campo de suas múltiplas atividades e tornam cada vez menor o outrora “imenso” mundo. Convertido, hoje, em “aldeia global”, o mundo do século 21 exige, a cada dia, melhores e mais responsáveis profissionais da mais sensível, indispensável, agradável versátil setor do relacionamento humano e social: Cerimonial e Protocolo."



[I] João Baptista de Oliveira é Cerimonialista, Professor Universitário, Advogado e Jornalista. Preside a Associação Paulista de Imprensa. Autor do livro “Como Promover Eventos - Cerimonial e Protocolo Na Prática”. É membro da Academia Cristã de Letras, cadeira 38









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